Nota Solta 57 — síndrome do impostor, criatividade e trabalho
Um episódio e um texto, em parceria com a Marisa Vitoriano
Não sei se pela idade, se pela velocidade a que o tempo tem passado ou se pela consciência de que, num dia, tudo chegará ao fim…. Os últimos meses têm sido de muita introspecção. No meio de tantos pensamentos, os que prevalecem são os de dúvidas, medos, uma baixa confiança de que todas as decisões que tomei não foram as mais acertadas.
Ainda que não haja indícios reais da tragédia que a minha cabeça faz por acreditar que existe, estaria a mentir se dissesse que a companhia da síndrome do impostor não me afeta. Afeta e de que maneira! Não nego, de igual forma, um certo cansaço por querer sempre correr atrás do prejuízo, nem tão pouco estas fases de transição que me obrigam a parar, refletir e decidir o rumo dos meus projetos e ideias.
Mesmo assim, há sempre um sussurro que reforça que as minhas inseguranças têm razão, fazendo-me acreditar que quase tudo do que faça está fadado ao fracasso, sobretudo se escolher descansar. Talvez seja um péssimo hábito que tenha adquirido na adolescência, o de reconhecer a fatalidade das minhas ideias em prol da sua importância na minha vida e nas dos que me rodeiam. Quando racionalizo o que sinto, percebo também que a bola de neve na qual me vejo inserida é fruto de um conjunto de ansiedades que se retroalimentam, dando-me a sensação de estar tudo fora do controlo.
Respirar fundo ajuda em alguns casos. Escrever metaboliza muitos dos anseios, revelando-me que nem tudo é assim tão mal e que grande parte do caos só existe na minha cabeça. Falar com outras pessoas sobre o assunto faz-me sentir menos sozinha. E foi exatamente o que decidi fazer!
Há umas semanas, convidei a
para conversar um pouco sobre a síndrome do impostor, criatividade e trabalho, muito inspirado numa das suas partilhas na newsletter na qual é anfitriã, o . Ela não só aceitou, como também selecionou uma das suas perguntas favoritas, desenvolvendo um pequeno texto que partilharei abaixo. Serve não só como complemento ao episódio que está disponível no Spotify, como um abraço aos que, tal como nós, duvidam mais do que acreditam nas suas capacidades.Não digo que saber da nossa existência resolverá todos os problemas de quem passa por algo semelhante….mas quero acreditar que, de alguma forma, inspirará a que se sintam mais amparados!
POV.
5. Como é que te manténs criativa num ambiente profissional estruturado?
Nem sempre é fácil manter-me criativa num ambiente profissional estruturado. A criatividade precisa de espaço e tempo para crescer e numa empresa nem sempre há esse tempo, porque temos prazos a cumprir e várias tarefas para fazer.
Mas também já foi mais difícil equilibrar isto. O ambiente em que trabalhamos também conta muito para te manteres criativa ou não.
De momento tenho a sorte de trabalhar num sítio onde me deixam ser criativa sem grandes limitações e isso para mim é mesmo essencial. Porque não te podem cobrar que entregues conteúdo e ideias criativas, quando estão sempre a cortar as asas.
Já tive trabalhos em que tinha mais “regras” e que não havia tanto espaço para arriscar e criar coisas diferentes, fosse pelas pessoas envolvidas fosse pelo tom das marcas e público-alvo. E aí a síndrome do impostor atacava-me mais. Também porque quando pensava em algo mais fora da caixa e de que me orgulhava, essas ideias eram vedadas e reprovadas. Então vinha o pensamento de “não sou boa o suficiente e não tenho nenhuma ideia de jeito”. Agora, à distância, consigo perceber que o problema era do local para onde tinha as ideias e não as ideias em si.
Mas quando estás num sítio onde dão asas, tudo se torna mais fácil e fluído. E trabalhar com pessoas que também são criativas, com quem podes fazer brainstomings e que te dão feedback construtivo (seja mais positivo ou negativo) também ajuda muito a manter a imaginação e a vontade de inovar ativas.
Outra coisa que me ajuda muito é encontrar pequenos escapes dentro da rotina… Ouvir música enquanto trabalho, ajuda-me imenso a ser mais criativa, ou fazer pequenas pausas para mexer o corpo. Uma das vantagens de trabalhar em casa é que podes pôr uma música animada e dançar uns minutos para descontrair o corpo e a mente antes de enfrentares aquela tarefa que vai exigir mais de ti (ou depois, para deixar o assunto de lado e seguires em frente).
Também gosto de ter um ambiente de trabalho com vários elementos decorativos e que me remetem para outro lado além do trabalho em vez de um espaço neutro e vazio. A minha secretária está cheia de “memórias em forma de objetos”. Não nasci para ser minimalista. Gosto de guardar merchandising e várias objetos que me lembrem momentos bons, relacionados com eventos e livros e coisas que me inspiram.
Por fim, também ajuda muito o sair e viver além do trabalho também é super importante, para quebrar com o padrão, ver coisas novas e recarregar o mood board interno da criatividade.
E pensando bem, o ato de nos mantermos criativas num trabalho estruturado já é em si um grande exercício de criatividade. Porque a criatividade é olhar para o mundo de formas diferentes e originais e ao tentar manter-me criativa num ambiente profissional estruturado sinto que estou sempre à procura de alguma forma de escapar da rotina.
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Até breve,
Carolayne ✨
Podia ter escrito esse primeiro parágrafo também. Identifico-me a 100% 🫂